Com quantos blogs se faz literatura?

17/10/2005 § 8 Comentários

Atividade sugerida – O computador é uma máquina de digitar ou possibilita a proposição de linguagens?

Com o advento do computador, lá atrás, nos seus primeiros tempos, muitos achavam que a escrita teria seus dias contados e a produção de papel seria bastante reduzida. Para o bem ou para o mal, estes prognósticos não se efetivaram. Não só vimos aumentar o trânsito de documentos escritos – formais ou informais – como também as impressoras cumpriram a função de aumentar a circulação de papéis em todos os setores do mundo letrado.

Para nós, educadores, alguns desafios permanecem os mesmos, ou melhor, estão sendo atualizados por novas questões, do tipo: será que a linguagem de que os jovens se valem ou criam para suas conversas via e-mails, messengers, blogs ou comunidades de interesses, estimulam a escrita ou se confrontam, de modo desestabilizador, isto é, na contramão do que a escola pensa, quer e propõe para a formação das competências escritoras de seus alunos?

Voltando novamente no tempo, assisti de dentro da escola, aos dilemas sobre como deixar ou não o computador/internet fazer parte do projeto político-pedagógico das instituições educacionais. Muitas escolas, as que se viam como “vanguardas”, faziam questão de colocar nos seus folhetos promocionais o grande diferencial de que dispunham para atrair maior número de alunos/clientes: “temos laboratório de informática”. Como pais, não escapávamos do roteiro de visitas que incluía conhecer a sala que contava com inúmeros computadores enfileirados, cada um partilhadao por dois estudantes, o que deveria ser visto como um grande avanço tecnológico!

Bem, o desafio era e continua sendo o mesmo, isto é, independentemente do números de máquinas que se tem disponível na escola, a questão é: como incluir as linguagens que o computador e, particularmente, a internet disponibiliza para o trabalho pedagógico propriamente dito? Como promover os aprendizados que constam dos planejamentos pedagógicos, se ainda não conseguimos dar conta de fazer com que jornais, cinema, tv, rádio, tenham seu lugar garantido não como mídias, mas como linguagens que podem favorecer a leitura crítica das mesmas, a leitura de mundo e seu uso como expressão cultural de nossos alunos?

Inclusão digital – Um falso problema?

Cabe ressaltar que para muitos brasileiros o acesso aos computadores só acontece nas escolas, portanto, é nesses lugares que o estudante e mesmo muitos professores, que não podem dispor de um computador em suas casas, terão para aprender a lidar com a máquina e ao mesmo tempo fazer uso de suas linguagens no processo de ensino-aprendizagem escolar. Não é tarefa fácil para os educadores, tratarem eles mesmos de aprender a usar computadores, fazer uso das ferramentas disponíveis pela internet e ainda considerar suas linguagens como conteúdos e objetivos do ensino de suas respectivas disciplinas acadêmicas.

Quando falamos em falso problema, gostaria de trazer a seguinte questão para debate entre nós: o da própria palavra inclusão – acompanhada de alguns complementos hoje recorrentes, tais como, “social”, “cultural” e “digital”– que traz um problema que merece esclarecimentos. Se clamamos por inclusão, penso que já consideramos que alguns estão de fora. Até aí, só nos resta constatarmos, mais ou menos perplexos, que no contexto das desigualdades econômicas, sociais e culturais em que vivemos, há os que têm acesso aos bens materiais e culturais produzidos (os incluídos) e os que não têm (os excluídos). Bem, o que será que é incluir os excluídos? No caso da inclusão digital trata-se de oferecer computadores aos alunos? Pode ser também, mas não só. É ensinar-lhes a digitar e acessar a internet? Pode ser também, mas não só.

Necessário x suficiente

Bem, do que estamos falando então? Estamos falando do fato de que ter computador e acesso à internet e, saber usá-los é condição necessária, mas não suficiente para resolvermos a inclusão de que falamos. Ou ainda, podemos incluí-los, apenas reproduzindo as diferenças, isto é, dependendo do lugar que o sujeito permanece ocupando ele continua excluído, pois na verdade ninguém está fora ou dentro da sociedade, mas está sempre ocupando um lugar, que pode ser de “poder” ou de “falta de poder”. Isto é, poder se apropriar das linguagens que a rede mundial de computadores (a web) disponibiliza, favorecendo a leitura e a expressão cultural é o que fará a diferença. Do contrário, estaremos oferecendo para muitos de nossos jovens apenas a agilidade na digitação, que nada lhes garantirá pessoal ou profissionalmente.

Por Flávia Aidar, coordenadora pedagógica do Yahoo! Busca Educação

Anúncios

§ 8 Respostas para Com quantos blogs se faz literatura?

  • Denise Henrique Mafra disse:

    Nóvoa afirma que nós educadores e educadoras devemos ter consciência de que nossa formação é sempre um processo de desenvolvimento pessoal. Mas para que transformemos essa experiência em conhecimento necessitamos do outro. Esse é um momento de consolidação da competência coletiva.
    Acho essa citação importante, Flávia, porque é através desse exercício que aos poucos poderemos transformar a escola.
    Um trabalho coletivo poderá auxiliar a cada um de nós, educadoras e educadores, a não deixarmos de lado o processo de criação pessoal e de nossos educandos/as, nos organizando através de novas práticas para que possamos dar sentido ao que ensinamos.
    Desta forma poderemos concretizar na prática o contato com as novidades diversificando nossa prática pedagógica. Afinal ensinar aprende-se ensinando. Somos todos aprendentes.
    E a tecnologia está aí como um caminho para que nós, profissionais da educação, e demais possamos sair do isolamento e construir uma Rede de Conhecimentos onde mais que agilidade na digitação possamos proporcionar a construção coletiva do conhecimento.
    Flávia, parabéns pelo texto!

  • lucia disse:

    para mim o uso do computador é um mundo novo estou aprendendo pela curiosidade e sofrendo,pois não tenho prática.

  • Flávia Aidar disse:

    Denise, faz tempo que li seus comentários mas só agora estou conseguindo voltar à ativa e, com as mãos no teclado, dar sequência a estas e outras conversas a distância, mas muito próximas no que se refere às idéias e concepções que temos sobre educação, não é mesmo?
    A referência que faz ao Nóvoa é fundamental para pensarmos na questão da aprendizagem colaborativa. Obrigada e um beijo, Flávia

  • Flávia Aidar disse:

    Lucia, é a curiosidade que muitas vezes nos mobiliza para aprender. Que bom que ela trouxe você para este blog. Veja os comentários feitos pela profa Denise sobre a importância de se aprender em comunhão, pois afinal, diz ela “somos todos aprendentes” e juntos podemos “construir uma rede de conhecimentos”.
    Espero vê-la sempre por aqui!
    Um abraço, Flávia

  • edvaldo disse:

    gostaria de saber mais sobre atividades para portadores de necessidades especiais

  • fabiana araujo disse:

    olá
    estou precisando de atividades lúdicas para serem aplicadas nas ferias para crianças que permanecem na escola nesse período . Crianças com idades de 02 a 04 anos.OBRIGADA!

  • Karina Maran disse:

    Gostaria de receber dicas, sugestões, sobre atividades diversificadas de inglês para trabalhar no 1º dia de aula com os alunos de 5ª a 8ª série. Não gostaria de dar matéria logo no 1º dia. Quero me interagir com as turmas pois sou professora nova na escola.
    Desde Já mto obrigada.

  • Bárbara Nicola disse:

    queria saber mais sobre dicas de estudo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

O que é isso?

Você está lendo no momento Com quantos blogs se faz literatura? no Pesquisa Educação.

Meta

%d blogueiros gostam disto: