Tecnologia criativa com cultura popular

18/12/2006 § 1 comentário

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Piano de chão, uma criação do Metareciclagem. (Crédito: Divulgação)

Dica – Usar computadores antigos, tecnologia livre e dirigir todos os esforços para a arte e a cultura são algumas das preocupações principais do movimento do software livre. Como isso acontece no Brasil, numa parceria entre o Ministério da Cultura e ONGs, é tema do artigo de Adriana Veloso enviado através do nosso canal Participe. Leia e comente com suas dúvidas sobre o assunto.


Software livre além do computador
Por Adriana Veloso com colaborações de Tatiana Wells
O marco da entrada do software livre no Brasil deu-se com o lançamento do Conectiva Red Hat, que a partir de 1996 disponibilizou uma versão traduzida ao português brasileiro do sistema operacional GNU/Linux. Mas foi de fato a sociedade civil que propagou o uso e construiu as relações de compartilhamento, troca e pesquisa intrínsecas ao projeto de um sistema livre e de código aberto. Ações como o Projeto Software Livre, por exemplo, que realiza desde 2000 anualmente o Fórum Internacional Software Livre (FISL) fizeram com que o GNU/Linux se tornasse mais utilizado e difundido.
Os avanços das interfaces gráficas e dos programas multimídia também foram de suma importância para a abrangência do uso do software livre, mas principalmente sua filosofia de livre distribuição, possibilidade de modificação e customização, entre outras características, atraiu muitas pessoas. É a cultura de uso desta nova ferramenta que fez com que os ideais de livre distribuição, compartilhamento e faça-você-mesmo migrassem para outras áreas, como a produção midiática e musical.
Os Indymedias foram os primeiros websites de notícias que utilizaram a licença copyleft. No Brasil, no final de 2000, chega o Centro de Mídia Independente. Logo depois, pessoas ligadas a música, como coletivo pernambucano Re:Combo, passam a utilizar uma licença de remix. É o início da migração dos ideais do software livre para a arte e a cultura.
Com a receita da feijoada disponível para todo mundo, cada região do país reinventou sua versão, adicionou um tempero regional. O licenciamento que permite executar, estudar, aperfeiçoar e distribuir, originário da GNU General Public License (GPL), passa a ser aplicado em outras esferas que não a do software. O que ocorreu no caso do Brasil, nos últimos dez anos, é que o sistema operacional livre e sua ideologia foram encaradas e utilizadas como catalisadores para ações que sempre existiram no “mundo analógico”.
Libertação da cultura por meio da tecnologia
A partir da distribuição de uma documentação sobre como produzir, aliada a popularização de mídias como gravadores de CDs e DVDs, passou a ser muito mais acessível divulgar realidades regionais. Pois, em contraposição à diversidade brasileira, o monopólio das mídias trabalha em função do jabá, representando na telinha ou no rádio uma cultura muito mais estadunidense que nacional. Quando muito destaca o Sudeste e um Nordeste rotulado em jargões comerciais.
Paralelamente, a interlocução das mídias livres trabalha mais diretamente com as pessoas, ao possibilitar que muitas outras vozes e opiniões sejam protagonistas. Conseqüentemente, a diversidade é muito maior. Um simples exemplo sobre a produção musical brasileira: quem é mais representativo, a Sony/BMG e seus 38 artistas nacionais contratados ou os mais de 30 mil músicos cadastrados no Trama Virtual que disponibilizam suas músicas em licenças livres?
Neste aspecto os Encontros de Conhecimentos Livres e as oficinas locais , promovidos desde 2005 pela Ação Cultura Digital, trabalham com a auto-estima das comunidades a partir do momento em que as colocam como protagonistas de sua própria história, oferecendo a possibilidade de auto-documentação da cultura popular local. Foram inúmeros os grupos que gravaram seu primeiro CD ou primeiro vídeo de trabalhos criados por gerações. São novas produções culturais que refletem para o mundo a diversidade nacional.
A instrumentalização tecnológica dos Pontos de Cultura, entidades selecionadas em edital pelo Ministério da Cultura para receber uma verba com vista a ampliar suas ações, seja por meio do kit multimídia ou pelo aprendizado do manuseio de ferramentas livres para a produção, também fez com que estes agentes se tornassem autônomos em sua produção cultural. Já é possível trocar material entre projetos de todo país e com acesso à internet pode-se conhecer muitas outras realidades além daquelas exibidas no plim-plim da Rede Globo, como no Acervo Livre, repositório de publicações abertas de material multimídia, por exemplo.
Reapropriação das ferramentas
Em se tratando da realidade brasileira não faz sentido falar em investimentos milionários em hardware, (computadores, filmadoras etc.), para promover essa difusão e produção cultural descentralizada. A grande questão fica em como trabalhar com a diversidade cultural e criatividade com poucos recursos.
O diferencial da abordagem brasileira com relação às ferramentas tecnológicas, ou o hardware, é que realmente temos disponível sucata e para nós o lixo tecnológico deve ser reaproveitado. Uma máquina de última geração pode até chegar a classe média alta, porém para fazer inclusão digital, entenda-se lá como for o que esta expressão indique, é preciso ter em mente que reciclar é dar acesso.
O copyleft do hardware
Justamente aqui entra o Metareciclagem, proposta que serviu de base para a construção da Ação Cultura Digital. Este projeto não se trata apenas de reciclar máquinas antigas para colocar telecentros em funcionamento. Fazer Metareciclagem é, principalmente, pensar em como empregar a parafernália tecnológica para projetos socialmente engajados e utilizar de criatividade artística para isso. Lembre-se que por tecnologia entende-se qualquer objeto manipulado pelo ser humano, de um lápis a um processador dual core.
Desmontar teclados, fazer deles sensores e construir um piano de chão é um exemplo de Metareciclagem. Uma videowall, ou parede de telas de computador antigas que exibem imagens, é uma aplicação do conceito de Metareciclagem. Estes são apenas alguns exemplos de projetos executados por pessoas que trabalham com baixa tecnologia, arte e multimídia. São coisas assim que encantam as pessoas por serem quase inimagináveis ao primeiro olhar, afinal, você pensaria em um piano ao ver um monte de teclados velhos e estragados? (Veja o vídeo do piano em funcionamento)
O que as pessoas que aplicam Metareciclagem em suas vidas realmente fazem é levar o conceito de código aberto ao hardware, à parafernália tecnológica. Pois, ao abrir a caixa preta da tecnologia, entender como as máquinas funcionam por dentro, reproduz-se a receita do bolo, da feijoada, ao utilizá-la de sua própria maneira.
Esse olhar, que vislumbra possibilidades infinitas, reflete a criatividade típica das brasileiras e brasileiros. Se propomos novos usos no artesanato, porque não na tecnologia? Além disso, a simples atitude de reaprovetar a baixa tecnologia é negar a obsolescência programada da indústria. Ao abrir as máquinas, desmistifica-se o que é um computador, seu funcionamento e sua distância, seja financeira ou de sofisticação.
Grupos e coletivos como o Metareciclagem, o Mídia Tática, e o Centro de Mídia Independente, que atuam direta ou indiretamente no MinC por meio da Ação Cultura Digital, misturam o low tech com o multimídia em um contexto de mudanças sócio-econômicas de onde emergem os conceitos do software livre e os novos tipos de licenciamento de obras artísticas e intelectuais. Um dos resultados disso é esta publicação, e outros estão disponíveis na Internet, mas, na verdade, tudo isso inicializou um processo colaborativo que muda a forma com que a cultura, a mídia e a tecnologia serão vistas pelas novas gerações.”

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§ Uma Resposta para Tecnologia criativa com cultura popular

  • eliel marques disse:

    Em um pais que tem uma história tão esquecível como a nossa não é difícil entender o baixo valor dado à cultura popular. Se estivéssemos falando sobre quem vai morrer na novela das oito teríamos muitas opiniões, mas como é sobre algo que deveria ser do interesse de todos, como a cultura popular, poucos ou até mesmo ninguém se interessa. Talvez por isso nossos políticos deitam e rolam em mostras de descaso com o Brasil como propinas e outros vícios que não sabemos por estarmos mais ligados a coisas efêmeras e pouco representativas da cultura popular. Como já dizia um político: “assim não pode, assim não dá”.

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