Mediação, conhecimento e informação

23/01/2007 § 11 Comentários

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Edmir Perroti, professor da disciplina de pós-graduação Infoeducação. (Crédito: Arquivo Pessoal)

Entrevista – O professor Edmir Perroti, do Centro de Biblioteconomia e Documentação da ECA/USP, ministra uma disciplina que estará na ponta da língua dos educadores em 2007. Infoeducação é um termo que designa a preocupação de unir ao cotidiano tradicional da sala de aula um dos bens mais importantes atualmente. A informação, por si só, não é o único objetivo da infoeducação. Absorver o conhecimento e interpretar a informação é maior trabalho que, segundo o professor, não pode ser deixado de lado. Veja a entrevista.


Quais os projetos que o senhor está envolvido atualmente?
No Centro de Biblioteconomia e Documentação temos um projeto fundamental para este ano, iremos trabalhar no desenvolvimento de um Núcleo de Pesquisa em Infoeducação. Com isso, pretendemos realmente lançar a questão da investigação nesse campo como um aspecto importante do panorama científico brasileiro. Estamos trabalhando portanto para a constituição desse núcleo em um trabalho pioneiro internacionalmente. Normalmente, existem apenas iniciativas na área de ciência da informação ou biblioteconomia, ou por outro lado na áre a de educação. Uma abordagem que reúna esses dois campos como uma questão a ser estudada e abordada, tratadas juntamente de forma integrada, é algo totalmente novo.
Sua especialidade é ciência da informação e educação. Quais as boas novidades e quais os pontos dessas áreas que os professores devem ficar atentos?
Os professores precisam primeiro perceber que deixaram de ser o pólo exclusivo e privilegiado de informação para os alunos. Eles até ainda têm essa função mas hoje tem a concorrência de outras fontes, institucionais, tecnológicas que mudam completamente a posição do professor. Se há algo importante para o professor entender é que ele não é mais essencial enquanto transmissor mas sim enquanto mediador de fontes de informação. Muitas vezes os alunos se perdem no excesso de informação. Mais do que nunca o professor não deve só dar o peixe mas ensinar a pescar mais do que nunca.
Essa mudança é algo bom na medida em que não se tem mais uma educação circunscrita a um único pólo. Há uma pluralidade de informações que nos força a sair da limitação da visão única, exclusiva. Isso não significa, no entanto, dispensar o papel inicial do professor mas repensá-lo como mediador.
Como podemos definir conceitos como informação, conhecimento e mediação?
A maior dificuldade está em transformar informação em conhecimento. Sempre entendemos a educação como algo mecânico. O professor dava a informação para o aluno e ele que tratasse de a transformar em conhecimento.
O que ninguém atenta nisso é que se tinha alunos que traziam contextos para a sala de aula. Os lugares onde viviam, o nível cultural que haviam obtido e as culturas em que estavam inseridos davam elementos para que essas crianças realmente produzissem significados e sentidos para o que recebiam. Nessa época não vivíamos em um mundo como o de hoje, cercado de informações livremente disponíveis.
Atualmente as informações disputam com culturas e contextos o processo de produção de conhecimento. Está tudo muito descosturado e há todo um trabalho a ser feito pelo professor, junto com os jovens, da constituição de um sentido. Isso pressupõe um trabalho de mediação totalmente diferente do passado. Já que o aluno tem acesso à informação, é preciso guiá-lo com um procedimento e trabalhar a construção de significado. Isso não é simples, é gradativo, lento e permanente. É necessária muita discussão e elaboração das informações para que essa possibilidade de acesso seja efetivamente um ganho.
É importante notar que é essencial haver essa compreensão de que os tempos mudaram. A transformação da informação para o conhecimento é algo construido sócio-culturamente. Se não notarmos isso, enfrentaremos uma grande crise. Iremos jogar informação nas cabeças dos alunos mas eles não conseguirão processá-las. Há três fases para esse processo, o de produção, o de difusão e o de recepção. A recepção tem que ser diferente de uma apropriação. No passado, por condições históricas, a escola confundia a recepção e a apropriação. Hoje não é assim. Só receber a informação sem que haja um trabalho novo para construção de significado, gera uma crise real.
Qual a sua opinião sobre o uso pelos professores de ferramentas online como blogs para a aprendizagem?
É essencial que os professores não se separem da sociedade. Se todos nós hoje temos que viver num processo permanente de reaprendizado, de familiarização com ferramentas de tecnologia, por exemplo, o professor não pode ficar de fora. Até um aposentado que quer receber sua aposentadoria precisa aprender a usar uma ferramenta relativamente nova, o cartão magnético dos caixas eletrônicos. Então, todos nós temos que aprender algo em várias situações na nossa vida. Não é algo circunscrito à área profissional de educação. Não se trata de ter uma abordagem futurista, “educar as crianças de amanhã”, não é isso. É o presente que nos afeta a todos. Se não nos educarmos – porq ue não fomos educados, nenhum de nós teve informação em primeira mão sobre infoeducação – se não aprendermos várias operações, não teremos como nos mexer nesse mundo que aí está.
Daí se vê que nós, professores, temos um problema muito sério. Temos que decidir o que iremos fazer com a avalanche de informação que nos chega toda hora. Temos que não apenas aprender a mexer nas máquinas mas aprender a organizar as nossas informações. O professor tem um papel essencial a desempenhar com os alunos e com sua própria classe. Se não forem os professores os usuários e beneficiados com a tecnologia, não terão condições de fazer com que as crianças e os jovens que necessitam dela sejam também.

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§ 11 Respostas para Mediação, conhecimento e informação

  • Moran disse:

    Caro Edmir:
    Parabéns pela entrevistae pelas suas idéias lúcidas, atuais e equilibradas.
    Grande abraço
    Moran

  • Max butlen disse:

    Parabens Edmir e feliz ano novo para todos com essas optimas perspectivas.
    Ate mais
    Max Butlen

  • Beth Fortes disse:

    Realmente hoje temos um excesso de informações, em todas as áreas, e muitas vezes não sabemos como utilizá-las. E nada melhor que os professores para ajudarem nossas crianças a organizarem estas idéias. Parabéns pelo projeto.

  • gloria cordovani disse:

    Prof. Edmir
    é sempre bom ler entrevistas, artigos e estudos das suas páginas antenadas com o futuro porque substituem nossas amarguras por conhecimento de ponta. quero muito fazer parte de sua equipe de pesquisa de infoeducação. Sucesso, Glória

  • Marly Amarilha disse:

    Edmir:
    Lúcida e propositiva sua reflexão. Abraço, Marly.

  • DILZA MARTINS FERREIRA disse:

    Prof. Edmir
    É bom saber que existem pessoas interessadas no sucesso da educação. É preciso ajudar nossos alunos a organizar a informação.
    DILZA MARTINS FERREIRA

  • Dalva disse:

    Professor achei de extrema relevância suas reflexões e muito contribuiram para uma melhor reflexão minha.

  • Sidnei disse:

    Edmir, parabéns!
    Entrevista esclarecedora. Como sempre afiando e rico, muito rico em conhecimento.
    Para nossa reflexão: “A idéia de informação está sempre ligada à idéia de seleção e escolha. Informação, aqui, se refere, não a que “espécie de informação”, mas a “quanta informação”. Só pode haver informação onde há dúvida e dúvida implica na existência de alternativas – donde escolha, seleção, discriminação. (…) Informações, pois, pode ser entendida como instruções seletivas. ‘Informação é o de que necessitamos quando devemos fazer uma escolha. Segue-se daí que não há informação possível fora de um sistema qualquer de signos ou sinais; inversamente, a introdução de um signo novo no sistema implicará, num primeiro momento, um certo grau de ‘inteligibilidade’ desse mesmo signo face ao repertório ou sistema de signos existentes’ (G.A. Miller) . 1 Pignatari, Décio em Informação, Linguagem, Comunicação. Ed. Cultrix 15ª edição pág. 40
    Sidnei Campos Pinto

  • ademir disse:

    gosto muito de videogames, quero saber mais

  • Martha Neri Cordovano Vieira disse:

    Gostei muito da entrevista.
    Sou professora de português e fiquei interessada. Obrigada, Martha.

  • Hildeni Fernandes Martins disse:

    Adorei a entrevista e solicito se possível que me forneça alguma bibliografia sobre o assunto, pois estou fazendo minha monografia com o tema: Educação um agente para a construção do conhecimento ou da informação.
    Desde já agradeço,
    Hildeni Martins

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