Professor deve opinar sobre escolhas em tecnologia

06/08/2007 § 8 Comentários

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“A escola pode matar a curiosidade do aluno em tecnologia”, afirma educadora. (Crédito: Arquivo Pessoal)


Entrevista – Margarita Gomez é professora formada em Ciências da Educação na Argentina, com pós-graduação em Comunicação na ECA-USP em Educação na FE-USP, e ensina no Mestrado em Educação na Unincor (MG). Autora do artigo “Paulo Freire: Re-Leitura Para Uma Teoria Da Informática Na Educação”, Margarita foi entrevistada pelo Yahoo! Busca Educação. Quais são as expectativas para o professor que utiliza tecnologia em sala de aula? Como educadores e alunos se relacionam quando se trata deste assunto? O artigo de Margarita, republicado aqui com autorização, foi escrito no contexto da pesquisa da ECA-USP e Instituto Paulo Freire em 99, “Perfil sobre a inter-relação Comunicação/Educação no âmbito da cultura latino-americana”. Veja as idéias que a professora agora traz que complementam estas questões.


* Qual seria o papel do professor com o uso cada vez maior da tecnologia educacional? Ele deve procurar ativamente mudar algo?
O professor que tem consciência da importância da tecnologia na educação, deve sempre procurar orientação. Diretrizes na lei, teoria da educação ou histórico de experiências anteriores são importantes. É necessário examinar sempre o que deu certo e errado em experiências anteriores. É importante também que o professor é orientador da aprendizagem mas deve saber que as gerações de alunos de hoje já nasceram na cultura digital e muitas vezes têm alguma formação em informática mas o professor não teve. As instituições de formação de professores nem o contexto social oferecem uma boa estrutura para sua própria educação, ele deve buscá-la.
E ainda há um problema maior, anterior ao uso da tecnologia na sala de aula que é as condições de aprendizado do aluno. O aluno precisa aprender a ler, escrever, muitas vezes com pouquíssimos recursos. E ainda, a partir daí, utilizar tecnologia na sala de aula. Mas se deve notar que o aluno sempre está curioso com relação às novas tecnologias. Às vezes, a escola até mata a curiosidade da criança quando cria empecilhos burocráticos e até pedagógicos que não são resolvidos. É aquela situação em que chega o laptop à escola mas é guardado para não quebrar, o professor leva os alunos para o laboratório de informática (poucas vezes está integrado ao dia a dia do aluno/professor) mas não dá uma orientação adequada ou quando adequada mantém uma regularidade com muita dificuldades. O resultado é que o aluno já encara a aula com tecnologia como algo chato ou como motivo para matar aula. Muitas vezes estas atitudes é que depõem contra o uso da tecnologia educacional e geram apenas discussões polêmicas em vez de um processo de conhecimento.
* É possível dizer que o professor precisa preocupar-se em uma boa utilização da tecnologia na sala de aula e em conhecer as ferramentas? São esses apenas os caminhos para informática na educação?
Sim, o professor usa ferramentas como qualquer outro trabalhador, e elas têm suas particularidades. Claro, existem muitas orientações teóricas e práticas para seguir mas é preciso ver o que tem em mãos, assumir uma postura de quem não está livre de paradoxo e até ficar dividido entre os modelos de tecnologia educacional, mas utilizar o que conhece ou domina.
Mas há algo ainda mais importante a perguntar: o professor acompanha as políticas que ditam a implementação de uma ou outra tecnologia? Participa nas escolhas do governo? Quais os critérios para a escolha das escolas que receberão essas ferramentas? Às vezes, são apenas as escolas-modelo que recebem novos projetos, como se fossem vitrines e ficam a maioria das escolas por fora do processo. É bom que o professor participe dessas escolhas, saiba sobre os saberes necessários à sua profissão para lidar com inovações. Também os alunos, comunidade e especialistas devem ser consultados. Lembrar que a educação é não é um delivery, deve-se investir na humanidade das pessoas, na sua solidariedade para aprender juntos.
* E o aluno? Muda também a relação aluno-professor com a tecnologia?
A relação professor-aluno marca e dá características particulares ao processo educativo, como a de autoridade, que realmente muda quando se dá em um diálogo e não em uma relação ditatorial. O professor é uma autoridade por seu conhecimento e papel humano e político pois ele sabe, critica é criativo e possibilita mudanças e crescimento das pessoas. O compartilhar com o aluno o espaço de aprendizagem os envolve numa relação afetiva e de respeito, com ou sem tecnologia.
Às vezes, o professor está preocupado em “aplicar” a teoria de acordo com o que está previsto no currículo, “passar conteúdo”, isto debilita o processo de aprendizagem. O professor deve saber suas limitações e potencialidades. Deve aceitar que pode aprender com os alunos, fazer uma rede. Os professores também devem saber que as crianças já sabem lidar com blog, mensagem instantânea e podem aprender isso com elas. O diálogo aluno-professor é o caminho possível para a educação.
Margarita também é autora dos livros “Educação em rede: uma visão emancipadora” (Ed. Cortez), “Alerta… cuatro computadoras en la escuela” (Ed. Rosario, Argentina), entre outros. Leia aqui o artigo de Margarita Gomez: “Paulo Freire: Re-Leitura Para Uma Teoria Da Informática Na Educação”. O artigo está disponível em PDF.

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§ 8 Respostas para Professor deve opinar sobre escolhas em tecnologia

  • Angélica Cristina Moreira Gontijo disse:

    Maravilhosa e pertinente à colocação da Drª. Margarita, “Muda também a relação aluno-professor com a tecnologia” Penso que o professor que exige e merece o respeito é aquele que acompanha as mudanças do tempo deixando o saudosismo de lado. Para uma boa relação educador X educando é primordial um estar adentrando no mundo do outro.
    O que posso acrescentar em minha experiência pelo Brasil, é que a maioria das vezes o professor tem MEDO, de estar até mesmo ligando o computador, e faço esta observação com propriedade por estar em diferentes lócus onde presencio tal fato.
    O educador não pode temer o que lhe parece novo. Se faz necessário criar uma cumplicidade para uma mediação capaz de desenvolver as habilidades dos envolvidos no processo ensino- aprendizagem.
    Parabéns Drª. Margarita

  • Renato Ribeiro disse:

    Muito claras as palavras da Profa. Margarita Gomez quando esclarece a dialógica relação entre os novos saberes dos professores e suas relações com os alunos e com a tecnologia. É uma triangulação interativa e que evolui mutuamente quando o professor toma consciência de seu “eu” e consegue interagir com os alunos. Principalmente aqueles alunos mais carentes e que não têm oportunidade e acesso a tecnologias fora da escola.
    Portanto, o aprendizado tem que ser um continuum para o professor, com novas competências e saberes ligados as Novas Tecnologias Educacionais.
    Parabéns Profa. !

  • Jenny Horta disse:

    Excelente entrevista! A professora Margarita reforça minha busca quando se refere “É bom que o professor participe dessas escolhas, saiba sobre os saberes necessários à sua profissão para lidar com inovações. Também os alunos, comunidade e especialistas devem ser consultados. Lembrar que a educação é não é um delivery, deve-se investir na humanidade das pessoas, na sua solidariedade para aprender juntos.”
    Por esse motivo acredito que um novo professor está surgindo e estou certa de que este, futuramente, será o grande personagem no crescimento da educação.

  • José Donizetti disse:

    Extremamente enriquecedoras as palavras da Professora Maragarita. Sobretudo, destaco a afirmação: “O compartilhar com o aluno o espaço de aprendizagem os envolve numa relação afetiva e de respeito, com ou sem tecnologia”. A relação afetiva e de respeito, na minha opinião, possibilita aulas bem sucedidas, em que professor e aluno sentem-se realizados, com a auto-estima elevada e com um entusiasmado desejo de prosseguir envolvidos no processo educacional, gerando, assim, o círculo virtuoso do processo ensino-aprendizagem. Parabéns, profa. Margarita! Orgulho-me por estar sendo seu aluno no Mestrado da Unincor.

  • Francinete Lobato Lopes disse:

    A produção trabalhada em sala de aula depende não só do envolvimento do professor para com as atividades,mas também da participação dos próprios alunos,e isso requer de ambos os lados interesses semelhantes e,optar por educação voltada tecnológica pode não ser tão produtiva satisfatóriamente se o interesse for apenas para enterter o aluno.Contudo,acredito sim nos progressos que se pode ter trabalhando por meio tecnológico,desde que o professor esteja apto para esse tipo de seguimento,pois mudanças já foram ocorridas.Escrito por:Francinete Lobato Lopes em agosto 14,2007 16:40 AM

  • Leilane Madeira Motta Caldeira disse:

    Querida Margarita,
    Gostei muito da sua entrevista, como sempre a professora sensata em suas colocações.
    Abraços,
    Leilane

  • Suellen disse:

    O texto é ótimo,fala da internet na escola de uma forma clara e dar opiniões boas.A integração aluno-profº é a melhor escolha para a evolução da internet na educação.

  • josé fernandes disse:

    Querida Professora Margarita,
    Suas colocações são fantásticas.Parabéns!Ter voçê como professora é muito bom!

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