Palestra de Bernard Charlot

11/11/2008 § Deixe um comentário

Prof. Bernard Charlot e profa. Heloisa Szymanski

Prof. Bernard Charlot e profa. Heloísa Szymanski (Foto: George Stein)

A professora Heloísa lembrou que é muito importante ver os programas integrados em um evento dedicado à produção de conhecimento. Agradeceu o prof. Bernard Charlot pela palestra “O professor na sociedade contemporânea” e passou a palavras.

Profa. Maria Malta assiste à palestra.

Profa. Maria Malta assiste à palestra.

O professor Bernard Charlot falou da formação docente. Disse que desconfiava de pesquisas em educação que já vinham com respostas prontas. Para Charlot, não é a professora construtivista que precisa dos pesquisadores. “É a professora normal, que trabalha para manter sua família, que prefere ir ao cinema que dar aula”, disse o professor. “Vamos pensar quais os desafios que essa professora enfrenta ao dar aula”, completou.

Prof. Alipio Casali, no auditório

Prof. Alípio Casali, no auditório

Charlot iniciou por uma abordagem histórica, passou por dilemas da formação do professor e características da escola e depois apontou soluções.

“Do ponto de vista histórico, a primeira guinada aconteceu na década de 60”, disse Charlot. Até a década de 50, a escola não era um local de ensino secundário. Na década de 60, a escola entrou numa nova lógica econômica. Os estados vão pensar numa lógica em que o objetivo fundamental é pensar em objetivo econômico e social. A conseqüência é que se teve de aumentar o nível de formação de toda a população e abriram-se as portas da escola.

Entre as conseqüências, entram na escola jovens que antes não chegavam a ir. Entram também dificuldades e contradições sociais. O ensino médio então será desestabilizado. O ensino superior, inclusive, ficará desestabilizado. A chamada “crise da escola” é uma conseqüência de sua democratização. “Mas prefiro uma escola em crise democratizada a uma pacata e tranqüila que não se pode entrar”, afirmou Charlot.

Curriculo

Marta Esteves (frente) e Diane Freire, mestrandas do Educação: Currículo

Cada vez mais é necessário formação para obter um bom emprego. Charlot afirmou que sua lógica de pesquisador é sempre achar que há uma lógica na fala dos alunos.

Na década de 90, a lógica anterior irá se aprofundar. Entra-se na era da globalização. É importante ter cuidado com o termo globalização. A globalização, a abertura de fronteiras, o desenvolvimento de redes que transitam fluxos de capitais, inicialmente teve poucas conseqüências no Brasil. O que teve grandes conseqüências foi a lógica neoliberal da globalização, com reflexos na educação.

Analisando então a lógica neoliberal das décadas de 80 e 90, não é só lógica econômica mas lógica de gestão, qualidade e eficácia. Isso irá se espalhar até a escola. Começa-se a falar em qualidade na escola, qualidade na educação, qualidade social e eficácia.

Muitos professores denunciam essa lógica da qualidade e da eficácia. O problema é definir quais os critérios para definir o que é qualidade e eficácia. Uma escola que faz todo mundo passar no vestibular? Ou não apenas levar o aluno à universidade ou ter um ensino em geral com qualidade e eficácia? Com estes últimos critérios definidos de forma clara.

Curriculo

George Stein e Sirlene S. Silva, mestrandos de Educação: Currículo

E agora, o nível de formação esperado é ensino médio. Algo ainda mais complicado para as escolas e instituições superiores.

Até o mês passado, deveria funcionar o Estado regulador. Um estado que não mexeria nas questões econômicas e faria apenas seu trabalho básico de segurança, políticas etc. Nos anos 80, 90, houve o avanço da privatização, o recuo do Estado. Ao mesmo tempo, avançou o global e o local. Houve uma valorização do local.

A comunidade vai ser reforçada e se interroga o que podemos fazer com a internet. Mais importância do local, do estabelecimento escolar como local, desenvolvimento de um projeto político-pedagógico da escola. Menos peso para o nacional e um relacionamento disso com processos maiores, como a internet.

A partir da década de 80 e 90, no entanto, a escola pública vive uma situação de abandono. Charlot, que vive e trabalha em Aracaju (Sergipe), lembrou justamente da situação das escolas do interior do Nordeste. Elas estariam no século XIX  e não no século XX.

As tecnologias de informação e comunicação farão com que o professor não seja a única fonte de informação. Isso funciona nas cidades mas também no interior. Os computadores chegam nos grotões do Brasil. Uma das cidades do interior, tem um barbeiro e tem um ponto de internet. O problema de internet no Brasil não é acesso mas outros.

A primeira conseqüência: o professor não é mais funcionário, mas um profissional. Um funcionário só realiza funções. O professor profissional tem que resolver problemas, tem mais autonomia. É a lógica da contemporaneidade. Tem que adaptar sua ação a um contexto. Tem que organizar exposições, saber da comunidade, do contexto local, ter um projeto político-pedagógico… Mas quem forma o professor para fazer isso? O professor não formado para fazer isso, apesar de ser uma das características do seu trabalho.

O professor também deve utilizar a informática. O problema não é ter computadores. Há escolas que tem salas com computadores trancadas. O que acontece é que o professor não é a única fonte de informação e não pode controlar o acesso dos jovens à informação.

Márcia Rosseto e Ma. Odete Tenreiro, da Comissão Organizadora

Márcia Rosseto e Ma. Odete Tenreiro, da Comissão Organizadora

Os jovens também lêem cada vez menos e a leitura é a base da cultura escolar, assim como a escrita. Há novas formas de comunicação, novas linguagens. Com Orkut, MSN, etc. São comunicações ping-pong, “acende-recebe”, não correspondem à lógica da escola. Deve-se usar computador na escola mas ninguém sabe como ainda.

Tem muitas escolas que estão tirando os computadores da escola pois estão vendo que não resolve o problema do fracasso escolar. São formas de mensagens que às vezes mais atrapalham as aulas do que qualquer outra coisa.

Curriculo e educadora do Projeto Guri

Maria Cecília Soares, mestre do Educação: Currículo e educadora do Projeto Guri

“Não estou dizendo que se deve retirar o computador, mas devemos fazer com que essa informação se transforme em saber”, disse Charlot. O saber supõe um tratamento da informação para produzir sentido. Não sabemos fazer isso.

O professor já perdeu a batalha da informação se quiser competir com a internet. Precisamos cada vez mais do professor para ganhar a batalha do saber. Em uma sociedade que tem cada vez mais informação.

A escola também não é feita pelo computador. Estamos vivendo numa forma escolar criada no século XVI e XVII e queremos implantar computador nessa escola. Acabou a aula, desligar o computador não faz sentido. O tempo da informática não é o tempo da escola.

Lucélia Guimarães, da Comissão Organizadora

Lucélia Guimarães, da Comissão Organizadora

O computador é contraditório na forma de avaliar os alunos. Há muitas contradições entre a escola e a tecnologia escolar. Não é um problema fundamentalmente técnico mas pedagógico.

Algumas pistas sobre contradições fundamentais:

Professor herói x vítima – Considerando as qualidades necessárias para ser docentes, são poucos os formadores de docentes que podem ser docentes (relembrando um antigo autor de teatro). Esse seria o professor herói. Exemplos que comovem muito, salas inteiras de professores se comovem mas poucos entrariam em algumas situações. É o ideal do eu conectivo, a figura heróica do professor. Quem quiser modificar a escola pode, de imediato conectivamente, mas deve ter uma conectividade de heróis, quem aceita esse papel, pode mudar sua escola imediata. Só que os professores não assinaram um contrato de heroísmo.

Ângela de Castro Correia, da Comissão Organizadora

Ângela de Castro Correia, da Comissão Organizadora

Às vezes, o professor também se vê como vítima. Alguém me enviou um texto sobre “o professor estar sempre errado”. Para implementar uma modificação na escola marcada por contradições sociais, temos que ajudar os professores a analisarem as contradições que estão vivendo. Devem perceber que não depende apenas deles e refletir como pensar essas contradições. Refletir coletivamente e tentar dar passos à frente. Senão, vamos continuar na lógica da estratégia de sobrevivência. O primeiro objetivo de um professor seria sobreviver, às vezes, até fisicamente. Depois, formar os alunos.

O que chamamos de resistência do professor às mudanças é outra coisa. Cada vez que há uma inovação, o professor tenta salvar suas estratégias de sobrevivência. Para salvar suas estratégias, ele não recusa a mudança mas reinterpreta para que seja compatível com a sobrevivência. E às vezes, esvazia o poder de mudança. Oferecer uma mudança sem garantia de sobrevivência é um grande fracasso.

As contradições sociais, não é uma questão de culpa, mas de responsabilidade. Mas a culpa funciona na cabeça do professor.

Em conclusão: só aprende quem tem atividade intelectual. Se o aluno não tem uma atividade intelectual, não vai aprender. Não se trata de culpa. O professor não pode ter atividade intelectual no lugar do aluno. Não se pode entrar no cérebro do aluno para fazer o trabalho de forma mais rápida.

Qualquer que seja a prática pedagógica, ela terá um efeito de acordo com a atividade intelectual do aluno. Se o aluno não tiver essa atividade, não há como fazer milagre. O professor depende do aluno. Dependência e contra-dependência. O professor motiva os alunos (ou manipula, apesar de ser uma palavra a que se tem resistência). O aluno não é construtivista. Depende do professor para aceitar entrar numa atividade intelectual.

A questão da culpa é a articulação entre o ato de ensino e da aprendizagem. O professor deve ensinar, não fazer com que o aluno aprenda. Alunos acham que estudar é fazer o que o professor diz que é para fazer. Bagunçar, brincar, brigar (a teoria dos três B) é o que aluno acha que não deve fazer para aprender. Deve só escutar. Esta é a lógica do aluno. Os alunos acham que os professores devem explicar bem. Nunca falam que os professores devem amar os alunos. Se o aluno, não aprende, a culpa é da professora.

Há outras contradições do construtivismo. Toda educação é tradicional, é a transmissão de elementos e tradições da comunidade. Ser tradicional, no Brasil, chega a ser considerado um insulto. Esse problema, temos que enfrentar de outra forma. Como a escola contribui para a formação do sujeito?

Escola em que o professor fala e o aluno escreve, não é pedagogia tradicional, é pedagogia errada. A diferença é uma pedagogia da atividade. Quer seja tradicional ou construtivista. Na construtivista, o aluno enfrenta problemas a serem resolvidos para construir o saber.

O problema do professor brasileiro ou francês não é tradicional ou construtivista. É ter mais tempo para os alunos fazerem exercícios, trabalhos, pesquisar. Há todo um programa a respeitar, coisas a serem transmitidas.

O que faz um professor? Tem práticas tradicionais mas abre parênteses construtivistas. Há algum tempo para projetos, atividades. E quando se faz reunião de pais, se valoriza esse tempo construtivista e não o trabalho cotidiano.

Outra dificuldade:

Escola universalista x da comunidade

A escola, por definição, tem bases universalistas. A educabilidade do ser humano é um princípio universalista. Os saberes da escola também são diferentes do saber cotidiano. O saber escola é consciente, voluntário e sistematizado. A escola é um mundo que transmite coisas que não se encontram fora da escola. Quem vive sempre na sua comunidade, por sua vez, nunca vai se revoltar. Não vai conhecer outros mundos.

Temos o direito à diferença e a semelhança. Muitos alunos querem a semelhança. Mas temos que lembrar do nosso papel de docentes numa sociedade de diferenças. Vivemos numa sociedade que valoriza a juventude mas não gosta dos jovens reais, que não têm possibilidade de entrar no mercado de trabalho.

O professor Charlot continuou a falar dos valores da educação. Disse que não teria conclusões. Aguardaria as perguntas do auditório.

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