Avaliação formativa e aprendizagem virtual em debate

15/11/2008 § 1 comentário

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Entrevista – Teresa Pombo é blogueira desde 2004 e mantém ainda mais um blog para sua investigação sobre avaliação formativa e aprendizagem virtual. A pesquisadora de Portugal conta como investigou o tema através de blog e comunidade virtual e sua colaboração com professores brasileiros. A pesquisa “Avaliação Formativa e Aprendizagem de Língua Portuguesa no Contexto de uma Comunidade Virtual de Aprendizagem” foi apresentado no I Congresso Tecnologias na Educação.


Avaliação formativa e tecnologia educacional são temas que podem sempre andar juntos? Há professores que têm receio de falar de avaliação e tecnologia, como se a avaliação tivesse sempre que ser algo não-tecnológico, concreto e arcaico, uma “avaliação de papel”. O que dizer para professores ou organizações que pensam assim?
Em relação à primeira parte da sua pergunta, eu acredito que não só esses temas podem andar juntos, como devem. Quando se pensa no papel que as tecnologias podem ter no contexto educativo, não se pode, de todo, perder de vista os ganhos que a utilização das tecnologias podem trazer às aprendizagens que os alunos devem realizar. Não se trata apenas de tornar o ensino mais actual e motivador, não se trata apenas de trazer o professor até ao século XXI, não se trata apenas de incluir no mundo da escola aquilo que desperta o interesse do aluno fora dela (a televisão, o computador, a internet, os games,…) trata-se de compreender que, de facto, já não se aprende como antigamente. Nenhum aluno meu aprende a escrever se eu disser “esse tipo de texto escreve-se assim e assim”; ninguém aprende a ler sem ser lendo, a falar falando; desculpem-me o óbvio mas a verdade que sinto cada vez mais forte é que o meu papel como explicadora de um conteúdo deixou de fazer sentido como parte primordial da aula. Haverá necessidade de um momento desses mas a realidade é que o aluno (seja qual for a sua idade e os conteúdos que estiver a aprender) aprende verdadeiramente quando explora, quando busca o conhecimento, interage com o conteúdo e com os outros que têm o mesmo objectivo que ele.
Assim, os meus alunos em Língua Portuguesa, por exemplo, irão aprender melhor se a quantidade e qualidade das tarefas de oralidade, leitura escrita, compreensão, for mais rica. E aquela que foi a minha descoberta é que as tecnologias têm aqui um papel fundamental. Ajudam a apresentar essas tarefas e a integrar as produções dos alunos; permitem acompanhar a sua aprendizagem; permitem comentar e dar feedback de formas mais enriquecedoras que respeitam os ritmos e as características de cada aluno.
Se apontei o modelo de avaliação formativa é porque de facto, quando me propus a compreender as suas características, percebi o que muitos outros investigadores perceberam antes de mim: que a avaliação é parte integrante da aprendizagem, do ensino. Não é um mundo à parte, não é um trabalho posterior, quando a aprendizagem está terminada. Deve ser algo que vá acompanhando o aluno e o professor no percurso, algo que o aluno possa também realizar sobre o seu próprio trabalho de maneira a regular o que já aprendeu, o que falta, como proceder.
Neste contexto, gostaria de referir o exemplo do modelo da WebQuest. Muitos professores já o conhecem, já o utilizam nas suas aulas com recurso às Tecnologias. Há cerca de uma semana tive oportunidade de assistir à uma conferência online com o criador do conceito de WQ, B. Dodge. Discutíamos a problemática de a WQ poder ser considerado um modelo desactualizado face à emergência da Web 2.0. Fiquei feliz quando o Sr. Dodge, veio de encontro àquilo em que acredito: que a WQ e as ferramentas da Web 2.0 (os blogues, o Google Docs, por ex.) podem conviver e enriquecer-se mutuamente. Aliás, se continuo promovendo o modelo de WQ não é apenas porque conheço os perigos de uma pesquisa na Web não orientada, é porque, para mim, um dos aspectos fundamentais da WQ é o pôr a nu os aspectos fundamentais do processo de aprendizagem sem esquecer a AVALIAÇÃO.
Quanto à segunda parte da sua pertinente questão: de facto, a AVALIAÇÃO parece continuar a ser um monstro, algo em que, surpreendentemente, os professores sentem dificuldade de falar. Para muitos, continua a ser a verificação da aquisição dos conteúdos. O aluno tem um tempo para aprender determinada matéria e no final, avalia-se a quantidade do que ele adquiriu.
Não se pensa na qualidade. Não se pensa em respeitar os ritmos e as necessidades individuais dos alunos; as suas características. Em Portugal, nos últimos anos, temos trabalhado em termos de avaliação de competências e o modelo formativo tem sido investigado. Os professores têm recebido alguma formação (que eu penso ser ainda insuficiente). Não se fala muito no uso das tecnologias, mas a verdade é que já existem alguns exemplos do uso de software para disponibilizar aos alunos instrumentos de avaliação formativa que lhes permitam, precisamente, regular o seu próprio processo de aprendizagem. Penso que, por agora, é nesse âmbito que faz sentido aliar as tecnologias à avaliação. Existem plataformas virtuais onde os alunos podem testar o que aprenderam, onde os professores disponibilizam quizzes sobre a matéria ensinada. O feedback pode ser automático ou poderá ser dado pelo professor posteriormente. Mas é possível, acreditem professores. Isso é o que eu diria; e claro, mostraria alguns exemplos (penso em Novembro deixar alguns no meu blogue da investigação: http://umpercurso.blogspot.com).
Conte um pouco sobre sua trajetória de pesquisadora e seu interesse de analisar avaliação. Você acredita que este tema é tão importante no Brasil quanto em Portugal? Já participou de outros eventos no Brasil anteriormente?
A minha trajectória como pesquisadora está intimamente ligada à trajectória como professora. Não consigo separar uma da outra pois, em contexto educativo sobretudo, creio que ambas têm se estar profundamente ligadas.
Comecei a profissão em 1993 e nessa altura a minha preocupação era já a diversificação de estratégias e materiais motivadores. O manual era o meu último recurso, nunca o primeiro. Por volta de 1999, com o alargar do uso da Internet, comecei a receber pequenas formações sobre o uso do PC como educadora. Eu usava-o desde sempre na elaboração cuidada dos meus materiais, na planificação, muito pouco nessa altura para avaliação a não ser para construir os instrumentos com o processador de texto. Nesse ponto, começava a produção de espaços Web para o alojamento de materiais. Só em 2003 senti coragem para começar o meu próprio espaço que é hoje em dia www.profteresa.net. Em 2004, surgiu a possibilidade de fazer um Mestrado em Lisboa (mais perto da área onde resido) em Ciências da Educação na área das Tecnologias da Educação. Aí tive grandes mestres e, literalmente, o meu prazer no computador, tornou-se paixão. Comecei o 1º blogue em 2004, que mantenho carinhosamente até hoje (http://blogicament.blogspot.com) e fui experimentando, experimentando, tentando, avaliando até hoje. Hoje sinto que já percorri um longo caminho mas que ainda não sei fazer nada! Que as possibilidades são infinitas e isso é que é maravilhoso: as tecnologias aliadas a um pouco de criatividade tornam o processo de ensino-aprendizagem ainda mais aliciantes.
Quando em 2005, chegou o momento de iniciar o meu projecto de investigação, foi doloroso. Havia tantas possibilidades! Contactei inúmeros investigadores, inclusive nos EEUU e obtive incentivos óptimos. Mas precisava decidir-me. O conceito de Comunidades Virtuais de Aprendizagem interessava-me muito nessa altura e, como tinha oportunidade de observar o trabalho de um colega, pensei observar o seu uso de um blogue, a participação dos alunos. Nessa altura, recordo, não fazia sentido para mim falar do uso educativo da internet e dos blogues sem falar de avaliação.
Afinal, era preciso saber como é os alunos aprendiam, o que é que aprendiam; e era impensável verificar isso sem introduzir o tema da avaliação. Não foi fácil convencer o professor cujo trabalho eu queria investigar de que eu precisava de saber como funcionava a avaliação. Eram dois mundos à parte.
Fiquei preocupada. Entretanto, quis o acaso que, no momento em que me
preparava para iniciar a investigação, com o início do ano numa nova escola, novas tarefas, esse professor viu-se impossibilitado de desenvolver o mesmo tipo de trabalho. E aí eu entrei nessa loucura de usar o meu próprio Ambiente virtual para procurar fazer nascer uma comunidade de aprendentes e usar WQ, fórum, blogues. Foi maravilhoso e trabalhoso ao mesmo tempo. Chegou a altura de observar o que eu própria tinha feito e os alunos também e as conclusões foram surgindo. Como sou muito auto-crítica, foi um processo
difícil mas que consegui concluir e hoje, depois de perceber a recepção dos colegas quer em Portugal, quer no Brasil, sinto-me muito satisfeita.
Durante todo o processo, fui começando a divulgar o que fazia dado que oportunidades maravilhosas surgiram. Na Universidade estive também ligada a um grupo de Investigação e Reflexão sobre Avaliação e tenho aliado essas duas áreas. Espero continuar. Como não quero deixar de ser professora, não é muito fácil. Dá-se um jeito, como se diz no Brasil.
Quanto à minha participação em eventos como este do Congresso, é a minha primeira oportunidade do género. E graças à Fátima Franco e todos os colaboradores, comecei – começamos, com chave de ouro. Estão todos de parabéns. Fica provado como as Tecnologias têm um papel tão importante no contexto da aprendizagem e do desenvolvimento da competência profissional do professor. Estou muito grata.
Aproveito para acrescentar que, com colegas do Brasil, tinha já realizado alguns projectos de escrita colaborativa. Tenho aprendido muito com profissionais brasileiros porque penso que algumas características dos colegas que tenho conhecido, como a animação, a motivação, a vontade, o esforço, a criatividade, se enquadram neste tipo de trabalho colaborativo. Têm um enorme lado prático que por vezes eu não consigo encontrar tão facilmente deste lado do Atlântico, confesso.
Como foi discutir seu texto online no I CTE? Quais os pontos trazidos pelos congressistas que mais lhe chamaram atenção?
Tal como já tinha sentido aqui em Portugal penso que o que surpreendeu no meu trabalho foi a questão da introdução da Avaliação. O que para mim é naturalíssimo (como falar dos que os alunos aprendem com os computadores, se não falar de como os avalio?) afinal não era tão óbvio. Fiquei muito satisfeita pois a minha palestra procurou sintetizar a minha investigação.
Não foi nada fácil colocar tudo em 20 páginas e, para ser sincera, achei que os congressistas iam desmoralizar quando abrissem o documento 😀 Mas, depois, apercebi-me que o tema era afinal apelativo. Que as pessoas queriam saber como tinha feito e colocaram-se questões pertinentes sobre o uso da própria língua em contexto virtual, as tarefas de avaliação, o papel dos pais. Acho que um dos aspectos importantes da discussão da minha palestra
foi que também provocou a partilha. Vários congressistas falaram do seu trabalho. Pouco deixaram links mas penso que poderiam tê-lo feito. Eu acabei por partilhar também o que tenho feito mais recentemente pois acredito que esse é o caminho: enriquecer a nossa prática com estratégias que vamos aprendendo uns com os outros. Estou muito grata por esta dupla oportunidade: a participação no congresso e esta entrevista e desejo a todos um óptimo trabalho!

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§ Uma Resposta para Avaliação formativa e aprendizagem virtual em debate

  • Adelina Moura disse:

    Cara Teresa,
    parabéns pelo excelente trabalho que vens desenvolvendo e acima de tudo pelo teu entusiasmo.
    Parabéns pela coragem em combinar avaliação formativa e tecnologias.
    Saudações digitais.

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