Táticas de guerrilha

10/04/2016 § Deixe um comentário

Há quase 15 anos escrevi esse texto.
Tinha acabado de voltar das disciplinas do mestrado. Relembro dele cada vez mais.

Disponível com ilustrações no Rizoma p. 188.
Edição Desbunde

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TÁTICAS DE GUERRILHA

Renata Aquino Ribeiro

A Web é feminina. Apesar de óbvio, o fato tem sido esquecido a ponto das mulheres desaparecerem quase ou totalmente de alguns setores de tecnologia. Mas as garotas preparam uma pequena revolução. O ciberfeminismo é a tomada de poder das mulheres invisíveis. São hackers, programadores, administradoras de sistema, engenheiras de software, profissionais de robótica e muitas outras mulheres que querem o que, por direito, também é seu. As mulheres querem a Web.

O ciberfeminismo começou no meio dos anos 80. Rachel, a andróide de “Blade Runner”, pode ser considerada a primeira heroína do ciberfeminismo. Donna Haraway em “Manifesto Ciborgue” detona a idéia tradicional do ciborgue. Haraway compara o ciborgue, sempre calado e submisso, com a mulher. Só que o ciborgue tem seu sexo disfarçado, é uma máquina, “assexuado”.

Mas o primeiro problema surgiu quando as garotas decidiram que não queriam ser apenas meros andróides. “Era o verão de 91 e éramos quatro garotas. Estávamos com calor, tudo estava muito chato e éramos muito pobres. Decidimos mudar o mundo da pornografia e fazer pornografia para garotas.Criamos algo usando computadores roubados: Implore (Beg), Puta (Bitch), Caída (Fallen) e Pegada (Snatch). Decidimos que era mais divertido brincar com computadores e passamos a nos chamar VNS Matrix”. O relato é de Francesca da Rimini, que junto com Josephine Starrs, Julianne Pierce, e Virginia Barratt foram um dos primeiros grupos de ciberfeministas.

VNS Matrix é um trocadilho com Vênus Matrix e é o grupo de garotas mais ousadas entre as ciberfeministas. Para as VNS tecnologia só se faz com muito tesão. “O clitóris tem que ser uma arma apontada em direção à Matrix” é a primeira frase do manifesto das garotas. Além da política, da pornografia e da arte, o ciberfeminismo também representa uma vida mais fácil para as mulheres. Seguindo o exemplo da primeira hacker conhecida da História, Ada Byron Lovelace, as mulheres criaram projetos de tecnologia que servem para o público em geral e para educar outras mulheres. É o chamado tech-empowerment, educação, poder e respeito através da tecnologia.

Como fazer mulheres hackers

Ainda está longe o dia em que a proporção de mulheres hackers será a mesma que a de homens. Na cena hacker, ao contrário da piada que diz “o bom da Web é que ninguém sabe se você é um cachorro”, a questão sexual é transparente e incomoda. As mulheres que querem ser respeitadas em IRCs (bate-papo) de hackers têm que agüentar muita piada e desprezo no início. Adquirir habilidade é essencial e uma garota precisa ser infalível para ser respeitada como um homem hacker principiante.

Mas nem tudo são espinhos. As mulheres são muito mais cuidadosas e peritas na área de segurança e estão sendo mais e mais procuradas neste setor de tecnologia. Lucent, Cisco e outras empresas já abriram cursos e oportunidades de emprego específicas para mulheres de tecnologia. Listas e fóruns começam a pipocar na Web para as garotas interessadas em uma lucrativa carreira como hacker de chapéu branco, ou pró-segurança.

Há que se espantar é com a demora desses acontecimentos. De acordo com números extra-oficiais, as mulheres são atualmente 54% dos internautas nos EUA. Ou seja, as mulheres são metade da Internet mas sua participação na construção da infra-estrutura tecnológica é quase inexistente.

Algumas mulheres, para “chegar lá” no mundo da tecnologia usam de chantagem sexual para adquirir conhecimento e poder. É comum presenciar garotas tentando “subir na vida” seduzindo homens hackers no IRC. O final desta história, no entanto, é triste. Hackers experientes, bem-pagos e mais velhos não costumam ir ao IRC para aprender novos truques. As redes de relacionamento se tornam mais sofisticadas e, no topo da pirâmide, a hacker “desfrutável” tende a ser descartada. Sites como o Old Boys Network ensinam a mulheres de tecnologia códigos de conduta e truques mais úteis do que os aprendidos com script kiddies.

O que fazer se suas fotos nuas foram parar na Internet

Ser uma hacker, no entanto, não é o desejo de toda mulher. Muitas só queriam entender direito o que significa afinal POP3, SMTP, DNS, IPConfig, 802.11b, Ethernet, Firewall e dezenas de siglas e nomes da tecnologia. Para essas mulheres, o que fazer então quando o spam passa a entupir a caixa postal? O que fazer quando o ex-namorado insiste em mandar um vírus obscuro de represália? E, mais comum e pior, o que fazer quando suas fotos nuas vão parar na Internet?

Pamela Gilbert teve que sobreviver a isso. E não só conseguiu se defender do título de mercadoria mais quente do alt.sex como perseguiu o ex-namorado na própria Usenet. Gilbert era, na época, professora universitária de literatura e não tinha nenhum contato com a Internet a não ser o uso de email. Foi através de uma amiga do ex-namorado que ficou sabendo que suas fotos nuas viraram mercadoria na Usenet.

A primeira reação foi pavor. Pamela queria se esconder do mundo. Mas esfriou a cabeça e traçou um plano de arrepiar a coluna de qualquer machão na Web. Os postulados Pamela Gilbert para fotos nuas na Web:

1. Não se deixe abater. Parar de trabalhar ou se esconder do mundo só vão fazer feliz ao ex-namorado desonesto.

2. Dente por dente. Documente todos os passos do ex-amante despeitado. Não adianta tentar reaver as fotos mas mostrar a um juiz os emails da dor-de-cotovelo pode render uma bela indenização.

3. Evite violência. Se o moçoilo não se contenta apenas em lhe desmoralizar mas também toma providências como terrorismo tecnológico ou físico, bote a polícia atrás dele. Uma ordem de restrição conseguiu que o ex-namorado de Pamela não chegasse mais perto dela e ainda ficasse desmoralizado.

4. Não espere ajuda dos amigos do ex-namorado. Infelizmente a irmandade do machismo é grande. E a ignorância e o desprezo da importância de trocas de email ajudam. Uma associação feminista é a melhor alternativa para buscar ajuda.

A perspectiva brasileira e latina

O ciberfeminismo no Brasil é virtualmente inexistente. O primeiro trabalho a falar de ciberfeministas brasileiras está em produção atualmente por uma mexicana doutoranda da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro.Amália Eugênia Fischer Pfaeffle é doutora em comunicação e professora universitária. Defendeu e divulgou sua tese sobre ciberfeminismo em revistas e diversas conferências. O trabalho, chamado “Producción de tecnocultura de género, mujeres y capitalismo mundial integrado” já tem versões em português.

P.: Por que um trabalho sobre ciberfeminismo?

R.: Decidi fazer um trabalho sobre ciberfeminismo por vários motivos:

1. Porque é importante que as mulheres se apropiem da tecnologia.

2. Porque na Internet se reproduzem as mesmas arborizações que na sociedade. Mesmo que a maneira como as mensagens são trocadas na Web não passem por um centro, uma censura etc. mas alguns conteúdos são patriarcais, racistas, lesbo e homofóbicos e reproduzem de certo modo a sociedade patriarcal. É importante que as mulheres desconstruam também na rede essa sociedade. O patriarcado se reproduz em todos os níveis.

P.: Do que se trata o seu trabalho e como tem sido recebido?

R.: Meu trabalho é uma análise sobre o Capitalismo Mundial Integrado, as lutas e resistências dos movimentos sociais no contexto da globalização e a Tecnocultura de Gênero. Como se produz o relacionamento entre tudo isso e em que nível de complexidade. Tem sido bem recebido por mulheres interessadas na problemática.

P.: Você considera que a mulher irá ganhar mais espaço no mundo tecnológico?

R.: Pergunta difícil de responder. Acho que existe muita ciberliteratura feminista na Internet, mas em inglês e um pouco em espanhol. Acho que a cada vez mais as feministas estão preocupadas com o ciberfeminismo. Você encontra desde meninas que respondem agressivamente e na mesma linha que os homens até outras que fazem analises mais filosoficamente complexas.Mas sim, acho que as mulheres vão ganhar mais espaço no mundo tecnológico. Temos apenas que tomar cuidado para não perdermos nossos direitos a qualquer momento. Governos autoritários são a pior hipótese e podem levar isto a acontecer.

P.: Qual a sua definição didática de ciberfeminismo?

R.: Por um lado, é analise e prática do feminismo na Internet e uma luta mais das feministas por desconstruir o imaginário patriarcal na Internet. E uma proposta teórica sobre o feminismo e a tecnologia cibernética, assim como uma crítica ao patriarcado e ao capitalismo. Por outro lado, trata-se de fazer com que as mulheres tenham acesso à tecnologia e saibam como usá-la.Garotas do barulho São muitas as opções e os projetos para mulheres em tecnologia. Fizemos uma lista histórica e geográfica dos destaques para as garotas que querem mais.

LISTA

1. Ada Byron Lovelace – A Rainha das Máquinas Programadora e engenheira do primeiro “computador”. Inglaterra, 1852.

2. VNS Matrix – Francesca da Rimini, Josephine Starrs, Julianne Pierce, Virginia Barratt

3. Donna Haraway – Manifesto Ciborgue

4. Old Boys Network – Women Hackers

5. Guia Pamela Gilbert para fotos nuas na Web

6. “Producción de tecnocultura de género, mujeres y capitalismo mundial integrado”

Matéria publicada inicialmente na Revista Geek e no Jornal do Brasil – Caderno Internet
Fonte: Magnet

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